Casos da bola: Conselho de “mui amigo”

Por Laercio Arruda (na foto ao lado) – texto exclusivo para o Surfista Paulistano*

Bons tempos aqueles em que os repórteres (setoristas) acompanhavam sem problema algum, os coletivos, atividades físicas, treinos táticos, nos clubes como Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Santos e Portuguesa de Desportos. Não havia assessores de imprensa para interromper inadvertidamente um papo, uma conversa descontraída com os craques da época… isso lá pelo início dos anos 1980. Relembrando um pouquinho o velho estilo de se cobrir um clube de futebol, as histórias, os “causos”, rolavam nas conversas diárias nos encontros entre jornalistas, jogadores e integrantes da Comissão Técnica. Na querida Lusa do Canindé, uma figura inesquecível: o massagista Osmar Santos – homônimo do então renomado radialista Osmar Santos, que chefiava a equipe da Rádio Globo, integrada também por outros grandes nomes, entre os quais, Loureiro Júnior, Henrique Guilherme, Fausto Silva (Faustão), Roberto Carmona, Marcio Bernardes, etc.

Bastava perceber uma rodinha de repórteres, lá chegava o massagista da Lusa para esquentar a conversa. Numa das belas tardes de primavera, com a Lusa ocupando uma boa posição no Campeonato Brasileiro, o ambiente não poderia estar melhor. E lá vinha o Osmar com as boas sacadas esportivas. Após desfilar alguns nomes expressivos de treinadores com quem havia trabalhado, o massagista fez questão de lembrar uma passagem na Ponte Preta de Campinas, com o técnico Cilinho. Numa das vezes que a Macaca foi pra Segundona, Cilinho assumiu o comando do time a fim de levá-la para a Primeirona do Paulistão.

Uma decisão de dois jogos com a Portuguesa Santista, dava à Ponte o direito de retornar a elite do futebol paulista. O primeiro foi no Estádio Ulrico Mursa, em Santos. A Ponte com um time forte dominava o jogo logo de início. “Fizemos dois a zero nos primeiros vinte minutos. O jogo estava praticamente ganho. Mas, o Cilinho estava apreensivo. E não admitia a acomodação dos jogadores”, lembra Osmar.

A confiança na vitória era tanta, que Osmar passou a usar de artimanhas para irritar os jogadores da Lusa santista. A Ponte comandava as ações em campo. “No time deles, só havia um perigo: o médio-volante que chutava muito bem de fora da área. Por isso, tentei deixa-lo nervoso”. Certo momento do jogo, o volante desceu ao ataque, e Osmar não titubeou: “Chuta! Chuta!…Pode chutar que vai fora!!!” gritou. O jogador da Lusa, quase na meia lua da grande área acertou um torpedo. A Lusa fazia o seu primeiro gol. Ainda assim, Osmar confessou que pra ele era apenas o gol de honra.

O jogo continuava com as ações da Ponte. Novamente o meio-campista da Lusa, desceu ao ataque. Osmar rapidamente “aconselhou”: “Chuta daí! Chuta, pode chutar!” A confiança que o massagista depositava no goleiro da Ponte, caiu por terra. Outra vez o volante santista pegou bem na bola e empatou a partida. Com os nervos à flor da pele, o técnico Cilinho espumando de raiva, virou-se para o massagista: “Osmar!!!!! Se você falar mais alguma coisa…pode procurar outro clube!!!! Seu merda !!!”. Um silêncio no banco da Ponte. O jogo terminou empatado. Mas, havia a segunda partida em Campinas. Além disso, o volante do time santista, machucado, não jogou. A Ponte festejou o acesso à Primeira Divisão, pra sorte do Osmar…

*Laércio Arruda é jornalista, ex-repórter esportivo e policial das antigas de veículos como Diário de São Paulo. Atualmente, Arruda é um dos mestres mais renomados do curso de jornalismo, da Universidade Anhembi Morumbi, onde tive a honra de tê-lo como meu professor e orientador no meu trabalho de Conclusão de Curso. Hoje tenho o privilégio em ser seu amigo e o prazer em ouvir essas e outras histórias do futebol brasileiro.

Sobre João Carlos Godoy

Jornalista, surfista, amante, fanático por surf e pelo mar. Formado no curso de MBA de Gestão no Esporte da Universidade Anhembi Morumbi e assessor de imprensa na área de negócios e esporte. E-mail para contato: jc.surfistapaulistano@gmail.com
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5 respostas para Casos da bola: Conselho de “mui amigo”

  1. Rozinaldo Ribeiro Fiedler disse:

    Grande amigo Laércio Arruda. Gostei. Nota dez. Bons tempos e siga em frente.

    Um abraço.

  2. Pingback: Casos da bola: “No interior, jogo é jogo, e fim de papo” | SurfistaPaulistano

  3. moacir conti disse:

    fala brother lala sempre escrevendo bem. abracao moa

  4. Pingback: Ao mestre do jornalismo esportivo com carinho | SurfistaPaulistano

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