Casos da bola: “No interior, jogo é jogo, e fim de papo”

Laércio Arruda

Por Laercio Arruda (na foto ao lado) – texto exclusivo para o Surfista Paulistano*

Lá pelos idos de 1986, o Palmeiras contava em seu elenco com o ponta-esquerda Éder e o preparador físico Antonio Lacerda, ambos com passagens pelo Atlético Mineiro. Nos intervalos dos treinos, sempre havia um bate-papo, e o contador de histórias era o Lacerda… mineiro esperto…e muito alegre. As “excursões” pelo interior de Minas renderam grandes papos. O professor não perdia a chance de relembrar momentos gratificantes, memoráveis… Um deles, fazia referência a uma determinada cidadezinha do interior mineiro, que vamos omitir o nome, por razões óbvias. Pois bem, Lacerda contou que no aniversário da cidade uma grande festa foi montada para a chegada do timaço do Galo – com Cerezzo, Eder, Reinaldo, Luizinho e Cia…. -, que cumpriria um amistoso com o time local, rendendo ao prefeito inúmeros votos, posteriormente. Uma reeleição garantida.

O time da casa, de nível modesto, contava com algumas promessas, mas ainda sem chance de despertar o interesse da cartolagem do Atlético. O estádio abarrotado de gente. Ninguém queria perder o desfile de craques do Galo e da seleção brasileira. As moçoilas se acotovelavam gritando histericamente o nome do ponta-esquerda Éder, que tinha a fama de conquistador. O Atlético entrou em campo sob um foguetório tremendo, gritos da mulherada, e aplausos dos torcedores – divididos entre o Galo e o time local, que já estava em campo.

Éder, que de bobo não tinha nada, aproximou-se do Lacerda e comentou: “Cara, tá vendo o lateral-direito deles, aquele negão?” O preparador físico concordou com o Éder. O crioulo era realmente forte, um verdadeiro guarda-roupa, e certamente não daria uma “vida boa” ao ponta do Galo. Como se tratava de um amistoso, com ares festivos, Éder foi logo arrumando um jeitinho de bater um papo descontraído com o lateral “inimigo”. “E aí, tudo bem?”, perguntou o craque do Galo, acrescentando em seguida: “olha, eu soube que a direção do Atlético demonstrou interesse em contratar você”. O negão olhou pro Éder, mas não disse uma palavra sequer e continuou o aquecimento. O ponta do Galo insistiu no papo: “Olha, companheiro, como é um amistoso, vamos fazer um jogo de camaradagem, ok? Ninguém vai bagunçar ninguém. Podemos combinar o seguinte: uma minha e uma sua…e aí vamos tocando a bola, tá certo?” Éder não obteve resposta. O crioulo não quis muito papo e já se preparava para o inicio do jogo. O ponta, confiante no bom senso do lateral, não se preocupou.

A partida teve inicio, para o delírio do publico que superlotava o estádio. Na primeira bola lançada pelo lado esquerdo do Galo, Éder dominou e partiu pra cima do lateral. Assim que tentou sair pela esquerda, o negão deu uma pancada bem dada, jogando Eder e a bola pela lateral. O ponta se assustou, mas confiou que “a primeira” era do negão…afinal, jogava no time da casa. Bola vai, bola vem… novamente Éder é lançado pela esquerda. Deu um drible curto no volante e partiu novamente pra cima do lateral. O crioulo não perdoou… e “chegou junto” mais uma vez, jogando Éder no alambrado. O craque do Galo engoliu poeira, e mesmo assim, levantou esbravejando: “Porra negão, não combinamos que seria uma minha e uma sua”. O crioulo respondeu prontamente e com autoridade: “Aqui, toda são minha (sic)!!!!” No intervalo, Éder queixou-se de dores no tornozelo, e foi substituído. O jogo acabou no empate sem gols, contentando a “gregos e troianos”.

Para ler outras crônicas escritas por Laércio Arruda para o Surfista Paulistano clique aqui.

*Laércio Arruda é jornalista, ex-repórter esportivo e policial das antigas de veículos como Diário de São Paulo. Atualmente, Arruda é um dos mestres mais renomados do curso de jornalismo, da Universidade Anhembi Morumbi, onde tive a honra de tê-lo como meu professor e orientador no meu trabalho de Conclusão de Curso. Hoje tenho o privilégio em ser seu amigo e o prazer em ouvir essas e outras histórias do futebol brasileiro.

Sobre João Carlos Godoy

Jornalista, surfista, amante, fanático por surf e pelo mar. Formado no curso de MBA de Gestão no Esporte da Universidade Anhembi Morumbi e assessor de imprensa na área de negócios e esporte. E-mail para contato: jc.surfistapaulistano@gmail.com
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5 respostas para Casos da bola: “No interior, jogo é jogo, e fim de papo”

  1. Oswaldo Baise disse:

    Grande Laercio, o homem tem uma memoria de fazer inveja. Quando temos dificuldades de identificar algum amigo, procuramos o Lala, que de bate pronto fala quem é o dito, com quem casou, quantos filhos, não é facil. Alem de ser essa figura muito leal e que chegou na posição que esta, com muito trabalho e estudos. Muito bom te-lo como amigo.

  2. Nei Souza disse:

    Grande Lalá, parabéns pelo registro. Certamente vc tem muitos outros… notadamente do Canindé, q gostariamos de desfrutar…

  3. Pingback: Ao mestre do jornalismo esportivo com carinho | SurfistaPaulistano

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