Bate papo com surfista profissional

luciano brulher2_sidney polansk_liquid eye

“Se você quer ser alguém no esporte, tem que entrar

para medir força com os melhores”

Luciano Brulher.

Foto: Sidney Polansk/Liquid Eye

A frase acima é um conselho que o surfista profissional Luciano Brulher, 25 anos, local de Caraguatatuba (SP), ouviu em 2007 em um conversa com um técnico da equipe paulista amadora na época. Foi neste momento que Ninho, como é conhecido entre os mais próximos, decidiu se tornar profissional e hoje é o único surfista pro da cidade, conhecida erroneamente por ser um destino de praia de mar flat. Eu mesmo, já editando o Surfista Paulistano, peguei alguns swells de leste clássicos em Caraguá e picos como praia Brava e outros secret points do local são de fazer a cabeça.

Em comemoração ao aniversário da Associação de Surf de Caraguá (ASC), o Surfista Paulistano falou com Brulher sobre sua carreira, performance, localismo, Copa do Mundo e o atual cenário do surf profissional no Brasil. Confira:

Surfista Paulistano (S.P.) – Como começou a surfar? 

Luciano Brulher (L.B.) – Aprendi a surfar em março de 1992 com meu pai (o surfista local Luciano Sant’anna, de Caraguá). Eu tinha 3 anos e meio de idade. 

S.P. – Qual o maior perrengue que já passou no mar? Qual segredo para esse tipo de situação?

L.B. – Não lembro muito bem de quando e onde, mas já cheguei a sair bem tonto do mar depois de tomar um caldo bem forte. O segrego para esse tipo de situação é estar bem preparado fisicamente para sofrer consequências, às vezes.

S.P. – Qual seu estilo de surf preferido e qual é sua prancha mágica?

L.B. – Gosto do surf clássico e manobras inovadoras. Minha prancha mágica é uma 5’6 pés, do shaper Marcelo Barreira, da MB Surfboards. Ela tem 18 1/2 e 2/16, com rabeta round squash. É uma prancha muito versátil seja para ondas picadas ou mexidas até para ondas um pouco mais perfeitas e maiores. Ela é bem rápida e facilita muito na manobra, com bastante pressão. Esse modelo é resultado de um bom trabalho com o Marcelo, que tem sido fundamental pra minha carreira. Também agradeço muito o apoio da marca de parafina Manga Wax.

Luciano Brulher Foto: Shot Spot Brasil

Luciano Brulher
Foto: Shot Spot Brasil

S.P. – Como foi sua carreira de surfista amador? Quando decidiu virar profissional? 

L.B. – Fui campeão amador de Caraguatatuba em todas as categorias, desde sub 12 até adulto open. Participei de muitas finais nos eventos amadores. Infelizmente não consegui um título estadual ou nacional na categoria, mas conquistei muitos vices-campeonatos e sempre fiquei no bolo entre os oito melhores das divisões que disputei. Decidi virar profissional em 2007, depois de uma conversa com um técnico da equipe paulista amadora na época. Ele me disse: ‘se você quer ser alguém no esporte tem que entrar para  medir força com os melhores’. Foi um aprendizado muito duro. Conseguir isso sozinho não foi fácil.

S.P.  – Em termos de resultados, como tem sido sua carreira como profissional até o momento? Você já viveu alguma situação de stress com árbitros nos circuitos profissionais por onde passou? Como você digere essas passagens?

L.B. – Atualmente estou em quarto lugar no circuito Brasileiro, da Associação Brasileira de Surf Profissional (Abrasp), e em terceiro no campeonato Paulista, Já cheguei a ficar entre os 20 melhores no Super Surf WQS (etapa 5 estrelas), em Ubatuba (SP), em 2010. Quanto à arbitragem, em alguns eventos existem polêmicas sobre resultados, a gente fica bravo muitas vezes, mas todos nos estamos sujeitos aos erros. O surf é um esporte subjetivo. Acredito que podemos evoluir nos quesitos sobre julgamento.

S.P. – Quais campeonatos disputou esse ano? Quais provas ainda pretende correr em 2014?

L.B. – Em 2014 surfei em três eventos do Circuito Brasileiro, um deles era válido pelo Campeonato Paulista. Ao todo, até agora, consegui duas semi-finais e um resultado ruim. Nada mal para um começo de ano. De qualquer forma sei que preciso melhorar. Em 2014 vou disputar todos os desafios dos campeonatos Brasileiro e Paulista.

S.P. – Quais são seus objetivos como surfista profissional? 

L.B. – Para começar, quero ser campeão paulista e brasileiro. Também quero ter  oportunidade de competir o WQS (divisão de acesso para o circuito mundial).

S.P. – Como é sua rotina de treinos? Faz algum tipo de treino funcional?

L.B. – Minha rotina é acordar cedo e surfar todos os dias algumas horas, sempre buscando melhorar os pontos vazios da minha performance. Também cuido do meu preparo físico na Academia do Edinho, com Edson Filho. Confio na metodologia de treino adotada por ele.

S.P. – Quais são suas principais características como surfista? 

L.B. – Gosto muito de tubos e por isso estou procurando melhorar minha técnica nos canudos. Os aéreos são pura diversão. Voar sobre as ondas é uma sensação incrível.

S.P. – Qual seu pico preferido no Brasil? Quais picos você já surfou no exterior e qual é o seu preferido na gringa? 

L.B. – No Brasil, meu pico pico preferido é Laguinho, em Caraguá (SP). Maresias (São Sebastião – SP) e Itamanbuca (Ubatuba – SP) são duas ondas que também tenho muito respeito e gosto muito de surfar. No exterior já surfei em picos como México, Peru e Nicarágua. O meu pico preferido fora do país são as longas e tubulares direitas do México.

Luciano Brulher Foto: Sidney Polansk/Liquid Eye

Luciano Brulher
Foto: Sidney Polansk/Liquid Eye

S.P. – Como é viver do surf profissional sem patrocínio? Já pensou em largar o surf profissional para viver do freesurf? 

L.B. – Ficar sem patrocínio é uma luta constante com você mesmo. Acredito que a maioria dos profissionais como eu vivem pelo amor ao esporte. Sempre gostei de competir, nasci fazendo isso e acho que todo o reconhecimento no esporte vem através de quem você foi competindo. O estilo freesurf sempre será simbolo de felicidade, na teoria, mas se você analisar também existe uma competição de mídia entre eles. A competição existe lá também, mas de uma forma discreta.

S.P. – O que pensa sobre localismo? 

L.B. – Respeite para ser respeitado, esse é o principio. Infelizmente é difícil você ver isso dentro d’água.

S.P. – Recentemente, a Associação de Surf Profissional (ASP) foi comprada por uma empresa norte-americana (ZoSea) e nasceu a “Nova ASP”, que parece ter intenções de mudar a qualidade de estrutura e transmissão do circuito mundial. Como você vê a administração, gestão e infraestrutura dos circuitos paulista e nacional, atualmente? O que precisa mudar?

L.B. – Estamos em tempos de ‘vacas magras’ aqui no Brasil, infelizmente. Os circuitos no país precisam de mais investimentos em mídia, melhorar a transmissão via internet e premiação, principalmente. É preciso mais qualidade para divulgar o produto. Os dirigentes das entidades responsáveis por essas competições devem estar trabalhando para melhorar esse cenário.

S.P. – Quais são seus ídolos do passado no surf brasileiro e internacional? Quais surfistas ocupam esse posto atualmente na sua vida?

L.B. – Do passado são Alexandre Moliterno, Tinguinha Lima , Dadá Figueiredo,  Tom Curren, Christian Fletcher e Taylor Knox. Da atualidade são Alejo Muniz, Odirlei Coutinho, Junior Faria, Kelly Slater, Dane Reynolds e Mick Fanning. 

S.P. – O que você pensa sobre a nova geração do surf profissional na ASP? Quem você acha que é o favorito para levar o título mundial em 2014? 

L.B. – Não vejo o domínio sólido da nova geração do surf mundial no circuito. Caras como Mick, Parko ,Taj, Adriano, Jordy, Bourez estarão nas primeiras posições após a aposentadoria do Slater, se é que ele vai aposentar. Essa é a pergunta que todos querem a resposta. Posso queimar minha língua se aparecer uma surpresa. O surf é isso, nunca se sabe. Eu gostaria muito de ver um brasileiro campeão esse ano.

S.P. – Seu pai é um grande defensor de projetos de surf social em Caraguatatuba, principalmente à frente da Associação de Surf de Caraguá. O que pensa de projetos de surf para tirar jovens das ruas?

L.B. – A iniciativa é boa porque a escola gera educação. A escolinha de surf está ali para educar as pessoas não só no esporte mas também na vida. Mostra um novo estilo de vida saudável para as pessoas de todas as idades. Isso é maravilhoso. Quanto à evolução do nível técnico do esporte (surf) na cidade, estamos muito atrasados. Não tem como negar: não vejo a cultura competitiva sendo implantada nas novas gerações locais por aqui.

Luciano Brulher Foto: Studioleco

Luciano Brulher
Foto: Studioleco

S.P. – Como você vê o apoio do setor público (prefeituras locais do litoral norte de São Paulo) no surf hoje? 

L.B. – Em alguns lugares está caminhando bem. Em outros não vejo ainda o surf encarado com respeito pelas autoridades. Ainda existe o velho preconceito relacionado ao esporte, do surf ligado às drogas. Infelizmente é o preço que pagamos pelo passado.

S.P. – O que você pensa sobre Copa do Mundo no Brasil? 

L.B. – Os custos para a construção dos estádios são um absurdo. O país tem outras prioridades na frente de um evento desse tamanho.

S.P. – Você vê o surf nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro? 

L.B. – Não vejo o surf nas Olimpíadas no momento. Acredito que está encaminhando para isso no futuro, com as piscinas de ondas, talvez.

S.P. – Qual conselho você daria para surfistas jovens que querem viver do surf como profissional?

L.B. – Meu conselho é treinar bastante, se dedicar 100% no objetivo e plantar coisas boas para colher coisas boas.

 

Sobre João Carlos Godoy

Jornalista, surfista, amante, fanático por surf e pelo mar. Formado no curso de MBA de Gestão no Esporte da Universidade Anhembi Morumbi e assessor de imprensa na área de negócios e esporte. E-mail para contato: jc.surfistapaulistano@gmail.com
Esse post foi publicado em Aloha, Brazucas no surf, Circuito profissional, Competições, Entrevista, Esporte, Esportes radicais, Gestão no esporte, Localismo, Negócios do esporte, Profissionalização no esporte, Surf. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Bate papo com surfista profissional

  1. Paulada disse:

    Máximo respeito Ninho! Orgulho caiçara,Deus contigo irmão!

  2. Muito boa matéria! Exemplo de dedicação e humildade!

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