Entrevista com o fotógrafo de surf Basílio Ruy

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Basílio Ruy

Aloha, galera! Em primeiro lugar, mil desculpas por ficar tanto tempo sem atualizar o Surfista Paulistano. A correria aqui na Selva de Pedra não tá fácil. Agradeço os leitores que me escreveram pedindo novos textos. Em segundo lugar tenho uma boa notícia. Valeu a pena esperar tanto por um post.

Nos meus quase 20 anos de profissão eu já entrevistei muita gente. Muito engravatado, bastante atleta, pessoas diversas, etc. Posso afirmar sem medo de errar que a entrevista abaixo foi uma das que eu tive mais prazer em fazer. Chega de blá, blá, blá! Vamos a ela!!!

Aos 59 anos o fotógrafo Basílio Bosque Ruy, um dos mais antigos fotógrafos de surf do Brasil, casado há 26 anos, pai de dois filhos, carrega consigo duas características marcantes. A primeira é não ter medo de dizer e criticar o que pensa, como você perceberá no conteúdo abaixo. A segunda é manter o bom humor quando questionado sobre algo que este “redator prego” que vos fala deveria saber. Perguntei para Basílio: “Qual sua prancha mágica?”. Ele respondeu: “Eu não surfo porra!!!” Hahahahahaha. A partir dessa resposta percebi que o papo seria divertido. E foi!!! Confira!!! Aloha!!! Boas ondas!!!

Surfista Paulistano (S.P.) – Como começou sua história na fotografia do surf?

Basílio Ruy (B.R.) – Eu fiz um curso de fotografia em 1971 em uma firma alemã chamada Agfa-Gevaert. A Kodak, na época, não chegava nem aos pés desta empresa alemã, considerada a maior produtora de produtos fotográficos durante os anos 70 e uma parte dos 80. A partir daí fui fazer fotografia médico-científica. Eu frequentei o litoral norte paulista desde 1973. Eu tinha uns amigos que pegavam onda e eles me pediam para levar a câmera para a praia. E deu no que deu.

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Momentos marcantes: Basílio Ruy gosta muito dessa foto, clicada em 1986. Estão na imagem:  um “BRO” surfista, Zilando Freitas; uma amida carioca, Dominique Scundera, e um amigo francês.

S.P. – Você é um dos mais experientes fotógrafos de surf do pais. Quais outros fotógrafos profissionais brasileiros e gringos você admira da nova e antiga geração?

B.R. – Alberto Sodré, vulgo “Cação”, considerado no passado um dos 10 melhores surfistas do mundo na água. Lá fora Aaron Chang e Don King

S.P. – A fotografia de surf é uma profissão que reúne cada vez mais adeptos. Cada vez mais equipamentos menores, mais leves. Isso é bom pra profissão? Como você vê essa evolução tecnológica? Como você analisa o “crowd” entre os fotógrafos?

B.R. – Não existe mais a profissão fotógrafo de surf. Hoje é um bico. Hoje qualquer um tem a facilidade de pegar o cartão de crédito do pai, ligar para a B&H, passar o número do cartão do pai e receber o equipamento no Brasil. E, como a maioria dos jovens, esses “monte de ameba”, sabem mexer no computador, então não precisa saber coisa nenhuma de surf. É só fotografar, tratar a foto no Photoshop e pronto.

S.P. – Além da tecnologia, o que mais mudou da década de 70 pra cá?

B.R. – Brother, você saber que daqui a seis horas vai entrar um swell de leste e você pode ir para um lugar que quebra de leste. Ou você pode ir junto com o swell, como já foi feito em reportagens de surf. Você sai do Brasil vai para a Costa Rica e chega junto com o swell. Então, o que mudou é a web, que trás a previsão exata de onda, etc. Antigamente você ficava um mês, 45 dias, naquela “nhaca” da Indonésia para ficar com dois, três dias com swell porque você não sabia, tinha que ir pra lá.

S.P. – Conte um perrengue que você viveu no mar, na praia ou na estrada, em busca de imagens de surf…

B.R. – Perrengue é o que a gente está passando hoje. Tem um monte de idiota que está fazendo foto, que dá a foto. Hoje não tem mais parâmetro, os caras não cobram. Se você fotografar o Filipinho, essa galera que está no WCT (atual WSL), você vai ver um monte de moleque com câmera pendurado no “saco” deles. Eles têm o prazer de só estar na companhia desses atletas e sedem filme, foto, tudo. Então hoje a coisa tá complicada. Esse é o verdadeiro perrengue. Eu nunca passei perrengue de ficar não sei quantos dias dentro de um barco, você não podia nem ir até a areia para dar um “cagão” porque tinha marca de tigre na areia. E outra: na minha época eu tinha que bater 50 rolos de filme e não sabia qual era o resultado. Só sabia dias depois que você já tinha vindo embora. Ou você fazia as fotos ou a matéria não saia.

S.P. – Qual a sua melhor foto? Descreva esse momento…

B.R. – Pô, têm muita foto. Esse negócio de melhor foto é “frescura” porque o meu trabalho, como eu disse, em cromo (analógico), você não tinha como saber se era bom ou não. Uma vez eu fiz uma matéria em Grajagan, que foi uma das primeiras publicadas aqui pra mídia no Brasil. Ali eu fiz fotos boas com Antonio Martins e mais um monte de moleque de São Paulo, Plínio. Não tenho foto melhor. Foto melhor é aquela que a gente ainda não fez. É aquela que você ainda vai fazer.

S.P. – Qual o melhor ou os melhores picos de surf para fotografar?

B.R. – Indonésia é um lugar bem adequado, perfeita para luz, cor, tudo. Uluwatu, Padang Padang. O problema é que uma hora vai explodir aquela “merda” toda, porque é muita gente e é um lugar que não tem preservação nenhuma.

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Uma onda no outside de Niterói. Colocamos o nome de “Pedra Vermelha”

S.P. – Quem são os melhores surfistas brasileiros que você já fotografou? E internacionais, quem são os melhores com quem você já trabalhou?

 B.R. – Os melhores das antigas são Picuruta, Tinguinha (Lima), Pedro Muller e por aí vai. Atualmente você tem Adriano de Souza, que é muito fotogênico; Ítalo e Jadson (André). Tem surfista bom pra caramba: Filipinho, etc. Entre os internacionais, na minha opinião: Tom Carroll e Tom Curren.

S.P. – Como você analisa a fotografia de surf no cenário mundial em relação ao passado?

B.R. – As mesmas dificuldades que eu já respondi anteriormente. Inclusive é um problema não só do fotógrafo brasileiro, mas também em todo lugar do mundo. Você tem um monte de gente com aquelas cem, quatrocentas, tirando foto e postando. É uma coisa que desvaloriza.  

S.P. – Fale sobre os resultados do projeto Surf Guia Brasil. Como surgiu essa ideia? 

B.R. – Foi um projeto que um garoto de Florianópolis, chamado Máurio Borges, me procurou querendo material fotográfico. Só que como o preço que eu ia cobrar pelas fotos seria caro ele achou melhor eu ser sócio do projeto. E outra: ele não conhecia ninguém além da fronteira. Ele nunca tinha ultrapassado a ponte (Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis). Por isso quando eu entrei no projeto, eu implementei a parte de venda de anúncios, levei o projeto para os “donos” em São Paulo. Assim eu virei sócio. O Surf Guia Brasil foi uma ideia do Máurio Borges e a gente se associou a uma agência por aqui, de duas pessoas fenomenais, que são Eduardo Farias e Cesar Sales, um paulista e um “mané catarina”, cascas grossas, que produziram o tal do Surf Guia Brasil. O Máurio escrevia e eu fazia foto. Um conteúdo que não tem até hoje. Sem contar essas “picaretagens” que a Fluir faz. Pode ter certeza que eles (Fluir) vão no Surf Guia para puxar todas as dicas. Máurio e eu, fomos nos lugares. Percorremos do Norte ao Sul, das Pororocas ao Chuí. É um trabalho que despende muito tempo, porque queríamos fazer uma coisa bem feita. Não era algo para vender em banca ou para ser distribuição gratuita. Ou seja, é um projeto pesado de fazer.

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Muitas viagens: nove surfistas, um cinegrafista e um fotógrafo e, claro, o motorista. Nesta imagem (anos 90), estamos chegando em Punta del Este (Uruguai). Íamos em busca da “Perna Sul-americana da ASP em Punta, Mar del Plata (Argentina) e Capão da Canoa (Rio Grande do Sul)

 

S.P. – Como você analisa das suas lentes o momento do surf brasileiro no circuito mundial? A era Brazilian Storm!!!

B.R. – Essa palavra “Braziliam Storm” não existe mais. Ela foi criada por quatro surfistas do circuito e hoje ela é uma marca do litoral santista. Então acabou! Braziliam Storm não existe mais. É bom todo mundo saber. Não existe mais Braziliam Storm. Hoje essa expressão é uma marca de um “pinta brava” que registrou isso não só no Brasil, mas em uma boa parte do mundo. Todo mundo viu e assistiu no último WT do Rio de Janeiro (WSL 2014). Aquela “panaceia” de bandeiras do Brasil com a escrita Braziliam Storm. E todo mundo achando que era em prol daqueles meninos surfistas. Não é. Aquilo é uma marca que está faturando em cima de uma coisa que foi criada por quatro surfistas brasileiros do circuito mundial.

S.P. – Como você avalia o fato do Brasil ter conquistado mais um título mundial? O que isso pode contribuir ainda mais para melhorar o cenário do surf brasileiro dentro do Brasil?

B.R. – O que vem acontecendo com o surf brasileiro no circuito mundial já era algo previsto. Mais cedo ou mais tarde isso aconteceria. E virá muito mais. Ítalo, Filipinho, Medina de novo, e por aí vai. Os patrocinadores, com certeza, virão de fora. Porque os daqui não acreditam e nossas mídias acabaram. Acho que a maior dificuldade dos atletas para se manterem na elite será o patrocínio. 

S.P. – Completamos mais de 1 ano da primeira conquista do título mundial de surf do Medina e agora mais um título. Como você avalia a participação do poder público nesse processo, criando oportunidade e projetos sociais para crianças e jovens carentes nas cidades litorâneas?

B.R. – Eu sempre tive uma opinião a respeito do poder público. Acho que nós não temos que ficar esperando por esses órgãos. Temos que arregaçar as mangas e fazer. Digo isso porque sempre que você envolve um órgão público tem picaretagem. Tem que molhar a mão de um político e muito mais. Estamos vivendo isso em diversas áreas, inclusive no surf. Em um país de ladrões sem caráter fazer projetos sociais é bem complicado. Ainda temos essas tal de ONGs que nada mais são que uma maneira legal de assaltar o dinheiro público. 

S.P. – O que você acha da volta do Super Surf? Quais são as lembranças que você tem desse campeonato?

B.R. – Eu participei do nascimento da Abrasp (Associação Brasileiro de Surf Profissional). Inclusive estou planejando fazer um vídeo sobre a história do surf brasileiro, da Abrasp, pelo menos de 25 anos. No passado era uma coisa que todo mundo achava que era de meia dúzia de surfistas muito loucos, mas de louco ninguém tinha nada. Foi onde foram feitos os melhores circuitos nacionais do mundo. O Super Surf foi algo que veio da consequência disso e eu também participei ativamente da criação desse campeonato. Não existia no mundo um circuito nacional como o Super Surf. O primeiro lugar do Super Surf era R$ 22,5 mil na época. A “nhaca” do tal do Expression Session, que teve uma época a Nescau (como patrocinadora), era de R$ 10 mil. Não existia campeonato na Califórnia que pagava a premiação de um Expression Session que a gente tinha aqui. E ainda no fim do ano o campeão ganhava um carro da Volkswagen. 

S.P. – Você pensa em parar de fotografar? Se não fosse fotografo de surf, o que você seria?

B.R. – Olha, se você me arrumar um emprego de açougueiro ganhando bem eu paro de fotografar. Mas, como eu não sei fazer outra coisa e ainda continuam me chamando para trabalho, eu vou continuar fotografando. Se não fosse fotógrafo de surf eu ainda faria fotografia médico científica, que foi onde comecei.

S.P. – Como você analisa a falta de apoio de marcas de surf brasileiras no surf hoje, não patrocinando campeonatos, atletas, etc?

B.R. – O patrocinador percebeu que ele não precisava fazer isso, porque a loja vende, ela paga a conta. Por que eles vão fazer marketing? Hoje nos departamentos de marketing das empresas de surfwear você vê meninos que eram vendedores de Surf Shop. Eles não têm experiência no quesito marketing. Por que? Porque era um garoto vendedor de Surf Shop. Não é um cara que tem noção do mercado, que sabe o que fazer. A coisa é mais complexa. Tem que voltar lá atrás, voltar com aquela realidade de premiação que existia na Abrasp e não essa panaceia que se paga hoje. Não é por aí. A solução é fazer uma coisa bem feita e acho que o Super Surf já vem com essa realidade nova.

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Pinga (Luis Henrique Campos) e Basílio Ruy

S.P. – Conte mais sobre essa sua parceria com a New Era… Como começou? Quem procurou quem?

B.R. – O Pinga (Luis Henrique Campos) tem agora uma produtora que se chama The Box Marketing Esportivo. Eu trabalho com ele e aconteceu dele trazer essa parceria com a New Era. Fiquei muito feliz pelo convite. 

Complemento espontâneo do entrevistado: 

B.R. – É o seguinte, eu já estou há muitos anos nesse ramo e muitas vezes a gente acaba sendo um pouco ácido. Eu fui procurado pela Fluir (na edição) número 1, pelo Claudiones (Claudio Martins de Andrade, publisher da revista), que eu conheci no litoral norte paulista. Desde 1971 eu frequento aquela região. Minha família tinha casa em Baraqueçaba (São Sebastião). Naquela época para você ir para Maresias você tinha que sair pela manhã de Baraqueçaba e só voltar a noite porque a estrada era uma calamidade pública. Para você ir de Maresias para Camburi tinha um morro, que hoje é tudo asfaltadinho que vocês passam na maior moleza. Aquilo ali era uma aventura, passar de uma praia para a outra. Baleia, Barra do Sahy, eram picos alucinantes, não tinham uma alma viva. Havia meia dúzia de pescadores. Na minha época a gente ficava a noite em uma fogueira, com batata doce, fumando maconha, olhando pro morro, esperando aparecer um farol. Você ficava ali o final de semana inteiro e não via um farol. Atualmente fui para Maresias há uns dois meses atrás e é fila pra comprar pão, fila pra não sei o que, fila pra não sei o que lá. Tem todas as agências de banco. Eu trabalhei 26 anos na Fluir como fotógrafo exclusivo. Só pra Revista Fluir. Já faz um tempo que não faço trabalho pra Fluir. Aconteceram umas coisas estranhas. Cinquenta por cento da culpa do surf (no Brasil) estar onde está é da mídia especializada. Porque se você tirar a raiz de uma planta ela morre e a nossa mídia nunca fala de raízes. No Hawaii, quando uma criança nasce ela já houve falar de Gerry Lopez, assim por diante. Aqui, a criança já houve falar de Gabriel Medina. Só que antes do Gabriel Medina houve “trocentos neguinhos” que ralaram o saco, sangraram a bunda pra chegar onde está o surf. Nós não temos a cultura de preservar as raízes e por isso o surf brasileiro está onde está.

Obrigado, Basílio, pela atenção, confiança e respeito. Aloha!!!

Sobre João Carlos Godoy

Jornalista, surfista, amante, fanático por surf e pelo mar. Formado no curso de MBA de Gestão no Esporte da Universidade Anhembi Morumbi e assessor de imprensa na área de negócios e esporte. E-mail para contato: jc.surfistapaulistano@gmail.com
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5 respostas para Entrevista com o fotógrafo de surf Basílio Ruy

  1. Edu disse:

    Sensacional li duas Xx Aloha!

  2. BASILIO BOSQUE RUY disse:

    JOAO MUITO OBRIGADO PELO CONVITE E A DEMORA TEM SABOR, FICOU EXCELENTE A EDICAO PARABENS RHOLLA

  3. PAULÃO disse:

    Valeu Basa, como sempre sem papas na lingua, voce é um monstro

  4. Estou muito feliz em ler todos os dias comentários sobre a entrevista acima. Todo tipo de comentário é bem vindo, seja ele contra ou favor do conteúdo publicado. Porém, é importante ressaltar dois pontos em relação a política de comentários desse blog:

    1- nenhum tipo de ofensa será permitido nesse espaço. Comentário ofensivo será excluído. Pode criticar, mas sem ofender as pessoas.

    2- as opiniões dos entrevistados não refletem a opinião desse blog.

    Respeitando e entendendo essas duas regrinhas básicas, pode comentar a vontade, seja a favor ou contra o conteúdo.

    Aloha!!!

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