Bate-papo com Ale Zeni, CEO do Ibrasurf

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Ale Zeni, CEO do Ibrasurf

Se você conversar com um jovem surfista, no auge da vibe do esporte, sem dúvida ele dirá que seu sonho de futuro é viver do surf. Se você levar o questionamento mais a fundo ele completará seu discurso dizendo que sua meta é ser surfista profissional, ser campeão mundial. Alguns com uma veia mais empreendedora poderão dizer que desejam criar uma marca de surfwear ou quem sabe ingressar uma carreira executiva em uma das gigantes do mercado. Quem sabe, talvez, um surfista um pouco mais “nerd” (se é que isso existe, kkkkk), pode optar pelo caminho da tecnologia criando um game irado (não vejo a hora), um aplicativo e por aí vai.

Também tem o segmento dos artistas que acabam optando pela fotografia no surf, ou da pintura, da escultura. Tem a galera do jornalismo especializado. Não podemos nos esquecer dos professores de surf das escolinhas espalhadas pelas praias do Brasil. Tem instrutor que dá curso de apneia, treino funcional. Claro, tem a galera que fabrica as pranchas.

O fato é que os  caminhos para se viver do surf são inúmeros e o céu é o limite. Basta enxergar uma oportunidade surgindo no horizonte, se posicionar, remar firme e botar pra baixo, sem medo. O importante é fazer com profissionalismo e dedicação.

Foi pensando em como viver do surf que o empresário Ale Zeni, 40 anos, criou há 19 anos atrás o Instituto Brasileiro do Surf, o Ibrasurf. Atualmente conectado à FLUX EXPERIENCES & ENTERTAINMENT, o Ibrasurf comemora hoje números impressionantes que mostram o sucesso de alguns de seus principais produtos. Entre eles estão o Circuito Universitário de Surf, Rock Fest Universitário e Garota Universitária (confirma abaixo vídeo institucional do Ibrasurf/FLUX). Alguns números mostram o potencial do negócio: 4,4 milhões de pessoas impactadas pelos eventos, 30 mil pessoas prestigiando ao vivo as etapas nas praias e os shows e festas em São Paulo, mais de 60 universidades de São Paulo participam dos projetos.

Mesmo em um ano desafiador para a economia nacional, só nas duas últimas etapas do Circuito Paulista Universitário de Surf (realizadas em Maresias e Ubatuba), cada prova recebeu mais de 4 mil pessoas nas praias com cerca de 104 atletas inscritos.

Há pouco menos de 15 dias do Festival Brasileiro Universitário de Surf (vídeo abaixo com os melhores momentos de 2015) e do concurso Garota Universitária 2016 (melhores momentos de 2015 abaixo), que acontecem nos dias 3 e 4 de dezembro, em Maresias (SP), e do Music Conection, com apresentação de Gabriel O Pensador (confira abaixo um clip irado do cantor) e muito mais, no dia 9 de dezembro, em São Paulo, Ale Zeni conversou com o Surfista Paulistano para falar da história do Ibrasurf, sucesso dos produtos que criou, a sacada da conexão com o público universitário, sua visão do atual mercado de surf no Brasil e dicas para o jovem que pretende viver do surf. Uma dica, sem dúvida, chama a atenção “A receita para se viver do surf com sucesso é você se capacitar, estudar, se dedicar, ser honesto e trabalhar duro. Tem muita gente que pensa que só porque o cara vive do surf ele vive o dia inteiro na praia pegando onda e vendo a mulherada de biquini. E não é nada disso. É um trabalho tão árduo como qualquer outro. A vantagem é que a gente fica o dia inteiro pensando em surf, mas tem um monte de pepino pra resolver. Como qualquer outro negócio você tem que ter foco, planejamento, determinação, superação e força de vontade”, afirma Ale Zeni, CEO do Ibrasurf/FLUX.

Confira a entrevista abaixo:

Surfista Paulistano (S.P.) – Como começou sua história no surf?

Ale Zeni (A.Z.) – Meus pais sempre me levaram para a praia, eu pegava onda com pranchinha de isopor, coisa de criança. Comecei a surfar mesmo influenciado pelo meu irmão mais velho. Quando eu tinha 12 anos ele começou a surfar com uns amigos. Um belo dia eu resolvi ir com eles para a Praia do Tombo, no Guarujá (SP). Lembro até hoje que um dos caras me emprestou um longboard verde (risos). Ali foi amor a primeira vista porque eu dropei em uma espuma e fiquei de pé. Depois meu pai me comprou uma prancha e, como um “Surfista Paulistano” a gente ia para a praia só de final de semana e férias. Sempre gostei muito de esporte, tanto de surf quanto de futebol. Depois que meu pai construiu uma casa na praia o surf ficou muito mais frequente na minha vida.

S.P. – Para quais países o surf já te levou?

A.Z. – Eu comecei a fazer minhas viagens no final de 1997. Naquele ano eu fiquei 60 dias em Puerto Escondido, no México. Em 2000 eu fiquei 45 dias no Hawaii. Em 2001 eu fui mais uma vez para o Hawaii. Eu me formei na Faculdade de Esporte na USP em 2002 e em 2003 passei minha primeira temporada na Austrália para surfar, aprender inglês e buscar ainda mais conhecimento sobre o surf. Lá eu reencontrei as pessoas que me deram um curso de instrutor de surf no Brasil e trabalhei nas escolas de surf de lá. Nessa ocasião eu fiquei nove meses fora. Foram 30 dias no Hawaii, três meses na Austrália, um mês na Nova Zelândia, mais seis meses na Austrália e mais 30 dias no Hawaii.

Hoje já são sete temporadas na Austrália e cinco no Hawaii… o surf também me levou cinco vezes pra Indonésia, quatro vezes pra Costa Rica e pra picos como África do Sul, Porto Rico, México, Peru, Nicarágua, Panamá, Califórnia, França, Portugal, Itália e Espanha. No Brasil surfei do Rio Grande do Sul até Pernambuco, com uma trip inesquecível pra Fernando de Noronha, que considero o lugar mais lindo do mundo!

S.P. – Você fez uma Faculdade de Esportes por causa do surf?

A.Z. – Eu primeiro fui fazer faculdade de publicidade. Passei na FAAP (São Paulo) e fiquei lá um ano e meio, mas não gostei muito. Tanto o curso quanto o perfil da galera era diferente. Eu ia para a facu de bike, bermuda e chinelo. Chegava lá as pessoas estavam de camisa, sapato social. Foi algo que eu não me identifiquei muito. Na mesma época um vizinho do meu prédio começou a fazer faculdade de Esportes na USP. A USP havia criado um curso de Esportes, separado da Educação Física. O curso de Educação Física tradicional é um curso mais voltado para a saúde, para o trabalho como professor. Já o curso de Esportes era mais voltado para a questão do rendimento, competição, evento, marketing esportivo, gestão, administrativo. Fiz cursinho, prestei vestibular e passei. Passei também no curso de arquitetura no Mackenzie mas optei pela faculdade de Esportes. Comecei a estudar na USP em 1997 e tudo o que eu aprendia nas aulas de fisiologia, biomecânica, parte motora, etc, eu ficava pensando e tentando visualizar como aquilo poderia ser aplicado ao surf. Eu também gostava muito de futebol, mas 90% da minha classe gostava de futebol. Então eu vi que o surf era uma modalidade que poucas pessoas estavam estudando e eu enxerguei uma oportunidade no segmento. Cada vez que eu ia para a praia eu via mais pranchas em cima dos carros, mais crowd dentro do mar, mais exposição em mídia, mais lojas abrindo, porém ao mesmo tempo percebia que era um mercado carente de profissionais capacitados, especializados. Assim eu resolvi dedicar todo o meu aprendizado para o surf.

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Ale Zeni, no seu habitat natural de trabalho.

 

S.P. – Quais as dificuldades você encontrou nessa fase?

A.Z. – Durante os meus estudos era muito difícil você encontrar livros, pesquisas e monografias sobre o surf. Os próprios professores do curso tinham uma certa resistência sobre o tema porque eles não tinham conhecimento sobre surf. Eu resolvi acreditar, buscar informação, comprar livros, buscar referência de pesquisa em outras universidades. Essa literatura aqui na Brasil ainda é bastante escassa atualmente, você tem um livro ou outro que conta a história de alguém, mas lá fora no Hawaii e Austrália a literatura de surf é muito ampla.

S.P. – Como começou a questão do surf universitário?

A.Z. – No final do ano de 1997 um amigo surfista da faculdade foi convidado por outra pessoa para participar de um evento esportivo na praia, organizado pelo Mackenzie. Eles queriam algum surfista para representar a USP nesse evento. Meu amigo não queria ir. Eu ouvi aquela conversa e na mesma hora me candidatei à vaga. Antes disso, no meio do ano (1997) eu fiz um curso de juízes de surf, oferecido pela antiga ASP (atual WSL), na etapa do WCT no Rio de Janeiro, com o Rômulo Fonseca. Ao final do curso eles deram para os participantes um livro de regras e no final desse livro tinha uma página que falava de estrutura básica para eventos de surf. Fiquei com esse conteúdo guardado e fui para essa reunião no Mackenzie para conhecer o projeto do evento esportivo na praia. Fui como o surfista representante da USP. Chegando nessa reunião, o dono do projeto não tinha nenhum conhecimento de surf, ele estava precisando de uma pessoa que organizasse essa parte de surf no evento dele. Eu poderia ajudar, tinha o livro com a lista de tudo que precisava para realizar o campeonato. Na mesma reunião tinham outros três surfistas (USP, Mackenzie e PUC). Unimos forças para correr atrás do que precisava para realizar o surf nesse evento. E assim nos dias 6 e 7 de dezembro de 1997 realizamos na praia Vermelha do Norte, em Ubatuba (SP), o primeiro Beach Games. Foi um evento super legal, mega caseiro. A gente pedia para os amigos doações de camisetas, barrinhas de cereal, brindes para dar de premiação. Cobramos uma inscrição simbólica da galera e o vencedor da competição levou essa premiação. Foram 16 inscritos. Hoje cada etapa do Circuito Universitário de Surf tem cerca de 104 inscritos, além de uma lista de espera de 50 atletas, por falta de vaga. Aquele evento era o cenário perfeito. Estava reunida na praia uma galera das faculdades de São Paulo, passando um final de semana, curtindo o local, pegando onda, falando de surf, uma energia muito boa. Esse foi meu primeiro evento de surf universitário. Isso ascendeu a chama de fazer mais.

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Primeiro evento de surf em 1997

S.P. – Como foram realizados os eventos seguintes?

A.Z. – Realizamos esse primeiro evento em 97. Em 1998 fizemos dois eventos em Ubatuba já com o conceito único de Campeonato Universitário de Surf. O primeiro que aconteceu em abril de 98 foi o 1º Universitário Trio Sport Aeroperu, patrocinado pela marca Trio (barra de cereal) e a companhia aérea Aeroperu. E o segundo em outubro de 98 foi o 2º Desafio Universitário Hang Loose Reef, com pôster com uma foto do Fábio Gouveia e tal. Esse segundo evento fizemos em parceria com o Alfio (Lagnado, da Hang Loose), um dos maiores empresários de surf do Brasil.

S.P. – Você também teve uma escola de surf na Riviera. Como surgiu essa ideia?

A.Z. – Em 1998, mesmo já com os eventos de surf acontecendo eu continuei correndo atrás de novos conhecimentos. Então eu fiquei sabendo que estavam vindo uns australianos para o Brasil para dar um curso de instrutor de surf no Rio de Janeiro. Nessa oportunidade eu aprendi também como abrir uma escola de surf para iniciantes. Foi aí que eu percebi que também tinha uma oportunidade de abrir no Brasil uma escola de surf profissional e séria. No verão do final de 1998 para 1999 foi aberta a Escola de Surf da Riviera que durante anos foi uma escola modelo, uma das melhores do mundo na minha opinião, apesar de eu ser suspeito para falar. A estrutura era muito profissional. Tinha palanque, cinco tendas, 50 guarda-sóis, jornal do dia para os pais dos alunos, apostila, boletim. Na parte de recursos humanos só tínhamos profissionais estudando ou formados em Educação Física. A gente fazia dessa forma porque além do local ser frequentado por um público mais exigente, tínhamos a filosofia de fazer tudo com muito profissionalismo, porque o surf naquela época ainda tinha uma imagem negativa. Desde a criação do Instituto Brasileiro de Surf (Ibrasurf – 1997) nossa filosofia sempre foi fazer o melhor possível. Primeiro porque já tinha um monte de gente fazendo meia boca e não queríamos ser mais um meia boca. E em segundo lugar porque tínhamos a responsabilidade de mudar essa imagem do surf na sociedade. Exemplo disso foi quando o Ibrasurf surgiu. Em um primeiro momento ele se chamava Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Surf, ou seja, temos a missão de desenvolver a imagem do surf positivamente.

S.P.  – Quando surgiu o primeiro circuito universitário?

A.Z. – Em 1999 a gente sentiu que o formato de evento de surf universitário já tinha amadurecido com a parceria da Hang Loose e da Reef e que já tínhamos estrutura para realizar um circuito com várias etapas. Fizemos então naquele ano o 1º Circuito Paulista Universitário de Surf , com quatro etapas nas praias de Maresias, Camburi, Guarujá e Ubatuba. Foi um mega sucesso.

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1º Circuito Universitário de Surf em 1999

S.P.  – Além dos eventos de surf universitário, o Ibrasurf também promove cursos, congressos voltados para o surf. Como começaram esses projetos?

A.Z. – Essa é uma história engraçada. Em uma aula de administração esportiva na USP a professora pediu para os alunos se reunirem em grupos para criarem um evento esportivo para apresentar no final do semestre. Eu me reuni com outros dois colegas surfistas e já conhecia o mercado de surf, já sabia da carência do surf em ter informação, conteúdo de qualidade para a formação de profissionais qualificados. Assim tivemos a ideia de criar o primeiro meeting de surf, chamar alguns convidados para falar sobre o tema, promover network. Amadurecendo a ideia surgiu o 1º Congresso Brasileiro de Surf que aconteceu em 1999 na USP (confira vídeo abaixo de uma versão do evento realizada  em 2010 pelo Ibrasurf/ FLUX). Foi um congresso de três dias com convidados importantes do mercado para serem palestrantes e compor mesas redondas de debates sobre o segmento. Tivemos a participação do Claujones (Claudio Martins de Andrade), dono da extinta Fluir. Gustavo, do Camera Surf; o shaper Luciano Leão, da Surface; o Tucano, da rede Starpoint; e Marcos Conde, da Confederação. A adesão foi legal porque a própria galera do segmento entendeu a carência e a importância de fazer um evento desse tipo. Sempre quando realizamos um congresso os convidados se sentem honrados pelo convite e dão o maior apoio.

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Rico de Souza e Ale Zeni em uma edição do Congresso de Surf do Ibrasurf/FLUX

S.P.  – No começo de tudo você pensava em ganhar dinheiro com os campeonatos de surf?

A.Z. – Não. A ideia era fazer o evento por fazer. A gente não tinha nenhuma intenção em ganhar dinheiro com isso, ficar rico. A ideia era apenas estar perto do mar, era poder trabalhar com algo que é sua paixão. Isso foi muito engraçado porque em 99 quando fizemos o primeiro circuito, dois dos patrocinadores, a HD e a Flash Power, davam produtos pra gente, em troca de patrocínio. Então a gente tinha que vender bermuda, camiseta e energético na faculdade para poder fazer dinheiro para pagar os eventos (risos). A galera da faculdade conhecia e gostava do trabalho e dava esse apoio. Assim as coisas foram acontecendo.

S.P.  –  Já houve a participação de algum atleta profissional da elite ou do WQS nesses eventos de surf universitário?

A.Z. – Sim. Já tivemos a participação de alguns atletas, como por exemplo o Rony Bonneti e o Magno Pacheco, que foram campeões do Circuito. Eles foram um dos nossos campeões universitários em 2013. Infelizmente a gente sabe que no Brasil é muito difícil conciliar a carreira de atleta profissional com estudo. Chega um momento que ele tem que optar e dar foco para sua trajetória. A condição para o cara chegar no nível profissional é muito dura. Isso faz o surfista abrir mão de muitas coisas pra chegar no topo. Enfim, além destes já citados, outra presença ilustre que tivemos em nosso circuito foi o Ricardo Toledo, pai do Filipinho Toledo. Ele foi fazer faculdade de Educação Física e correu nossos circuitos em 2004 ou 2005. Ele ganhou bolsa integral da faculdade que ele estudava por correr o circuito universitário. Aliás temos muitas histórias de surfistas que ganharam bolsas de estudos em suas universidades por serem atletas do Circuito Universitário de Surf. O Ibrasurf já realizou também quatro campeonatos de surf  estudantis na Austrália, voltados para alunos de diversos segmentos. Em 2012 tivemos a participação do próprio Filipinho Toledo como atleta, estudante de uma escola de inglês na Austrália.

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Samuel Pupo (promessa do surf mundial) e Ale Zeni.

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Filipe Toledo em evento do Ibrasurf/FLUX na Austrália

S.P.  –  Como o circuito universitário de surf se tornou um negócio?

A.Z. – No final de 1999 o Ibrasurf tinha a Escola de Surf da Riviera, quatro etapas do Circuito Universitário de Surf e o Congresso Brasileiro de Surf. E no circuito de surf a gente sempre fazia para galera uma festa em um bar chamado Venice, na Vila Madalena, em São Paulo. Virou o barzinho do surf, onde todo mundo se encontrava. O dono do Venice, o Vanderlei, começou a perceber que o público que frequentava nossas festas era uma galera muito bacana: gente bonita, formador de opinião, alto poder de consumo, etc. Ele fez uma proposta para a gente no final do ano de 99, se oferecendo para sair em busca de patrocínio para o circuito. Nós topamos porque seria melhor do que ficar vendendo bermuda e Flash Power na faculdade. Foi aí que o circuito deu um grande salto, no ano 2000. Naquele ano fizemos um circuito com quatro etapas, patrocinadores, show na praia em todas as etapas. As premiações foram passagens aéreas para Indonésia, bolsas de estudo para escolas de inglês na Austrália, entre outros. No final do ano demos um carro 0km como prêmio. Foi exatamente uma época em que o surf profissional estava super em baixa. Os circuitos profissionais estavam devagar e o Circuito Universitário acabou se tornando o principal circuito de surf do Brasil. Nessa época muito atleta profissional de surf começou a se matricular em faculdades para conseguir correr o circuito por ser um campeonato bacana, com prêmios legais. Foi um grande boom para nós. Isso nos levou a realizar em 2001 o primeiro Circuito Brasileiro Universitário de Surf, com a MCD. Eles já eram nossos patrocinadores da Escola de Surf da Riviera, tiveram contato com o circuito e nos chamaram para uma reunião para nos propor o patrocínio para a realização de um campeonato nacional. Então em 2001, além do Circuito Paulista com quatro etapas em São Paulo, Escola de Surf e Congresso, fizemos mais 12 etapas pelo Brasil, do Rio Grande do Sul até Pernambuco. Foi sem dúvida um divisor de águas na nossa carreira. Nessa época eu tive que trancar a faculdade por um semestre para correr atrás desta mega organização e introduzir o conceito do surf universitário no Brasil inteiro. 

S.P.  – O que você considera um diferencial do Ibrasurf?

A.Z. – Acredito que o profissionalismo, a dedicação e o comprometimento de sempre fazer o melhor possível. E também de sempre correr atrás da formação e evolução profissional. Além de conciliar essa parte acadêmica, do estudo, com o surf, pois no passado, e até hoje muitas vezes, é difícil você encontrar alguém que trabalhe com surf que tenha a teoria e a prática. Hoje você vê muito profissional que tem a formação acadêmica, como professor de Educação Física, mas que não tem a prática ou vice-versa. E assim as coisas foram acontecendo. Esse ano, dia 6 de dezembro, vamos completar 19 anos do Ibrasurf.

S.P.  – Quais são os principais prêmios que as etapas oferecem para os vencedores?

A.Z. – As premiações dos quatro primeiros colocados de cada categoria são kits dos nossos parceiros. Para os campeões de cada categoria nas etapas são pranchas de surf e para o campeão do ranking final o Ibrasurf oferece hospedagem para picos de surf mundo a fora. Oferecemos 12 noites de hospedagem, alimentação e barco no Surfing Village, em Pasti, na Indonésia (fotos abaixo). Oferecemos também uma semana de hospedagem, alimentação e surf guide no Chile, em Pichilemu e também alguns pacotes de hospedagem no Rio de Janeiro. Esses pacotes de hospedagem oferecidos são sensacionais. Só para você ter uma ideia, um pacote de hospedagem no Surfing Village custa US$ 3.300, ou seja, um prêmio bem considerável. 

 S.P.  – Em um momento da história do Ibrasurf, a marca Ibrasurf se somou ao nome FLUX EXPERIENCES & ENTERTAINMENT. Podemos considerar essa mudança como um reposicionamento de marca?

A.Z. – Percebemos um tempo atrás que o Ibrasurf é muito forte no relacionamento com o público jovem universitário. Com isso nossa equipe teve a ideia de fazer outros projetos com o público universitário como o Concurso da Garota Universitária (fotos abaixo e vídeo abaixo), o Rock Fest Universitário, que é um concurso de bandas. E, as vezes você falava para alguém que estava fazendo o Rock Fest Universitário e vinha a pergunta: “mas quem faz?”. “É o Ibrasurf”. Instantaneamente a pessoa pensava em um concurso de bandas de músicas ligadas ao surf. E na verdade não é isso. Trata-se de um concurso de bandas universitárias de diversos ritmos e estilos. A partir daí entendemos que todas as ações realizadas pelo Ibrasurf já teriam um vínculo automático com o surf, mas a ideia era expandir o nosso trabalho para outros projetos com o público jovem não necessariamente ligados ao surf. Por isso criamos a marca FLUX em 2014, que é uma marca do Ibrasurf, focada em projetos de relacionamento com o público jovem. Por exemplo, o Rock Fest Universitário é um projeto realizado pela FLUX, em parceria com o Ibrasurf. A FLUX hoje é a marca que toca os projetos de relacionamento com o público jovem sem estar relacionado ao surf. Já o Ibrasurf continua sendo a marca que trabalha os projetos de surf.

S.P.  – Como é o sucesso do Ibrasurf /FLUX em números?

A.Z. – O Ibrasurf / FLUX já realizou mais de 120 campeonatos de surf, 18 Cursos para Formaçao de Instrutores de Surf (vídeo exemplo abaixo), oito edições do Congresso Brasileiro de Surf e cinco edições do Curso de Surf – Administração, Marketing e Gestão de Negócios. Eu me desliguei da Escola de Surf da Riviera em 2009. Até 2009 já tinham passado por lá mais de 10 mil alunos. A cada etapa dos circuitos temos uma média de 5 mil pessoas na praia e entre mil e 1.500 pessoas nas festas. Nossa estimativa atual é de que cada etapa do circuito atinge mais de 100 mil pessoas, isso sem considerar o impacto de mídia, que se for colocar no papel ultrapassa a marca de 1,5 milhão de pessoas. Hoje o Circuito Universitário de Surf é o maior evento estudantil de surf do mundo, o mais tradicional, que acontece por mais tempo, o que impacta mais gente, com mais público. E na minha opinião, junto com a etapa do WCT no Rio, é o maior evento de surf do país. A diferença é que nas etapas do WCT e do WQS no Brasil o público vai para ver a galera surfar. No Circuito Universitário de Surf ver o atleta surfar é parte do evento. O público vai também para curtir a cama elástica, o slackline, pista de skate (na areia), entre outras diversas atrações. Temos muitos parceiros. Hoje por conta da crise foi um ano difícil de patrocínio, mas temos grandes marcas como patrocinadoras que é a Club Social e a 51 Ice, via Lei de Incentivo ao Esporte do Governo do Estado de São Paulo.

Já a FLUX EXPERIENCES, em parceria com o Ibrasurf, já realizou uma edição do Rock Fest Universitário (2015) com 108 bandas inscritas, super sucesso. Realizou também umas oito festas universitárias e duas edições do Concurso Garota Universitária, que tem em média entre 120 a 130 garotas inscritas.

S.P.  – Muito se fala que as marcas de surf não apoiam os campeonatos de surf no Brasil, etc. Como você vê o mercado de surf hoje?

A.Z. – Em primeiro lugar vivemos hoje uma crise econômica no país, de maneira geral, que na minha visão está começando a melhorar. Acredito que o pior já passou. Acho que no momento as pessoas estão mais otimistas. O mercado de surf mundial sofre uma crise que começou em 2008, com a crise econômica nos EUA. Você vê marcas como Billabong, por exemplo, quase falindo. A Quiksilver também passou por dificuldades, enfim, a coisa não está fácil pra ninguém. No Brasil o mercado de surf foi um negócio muito rentável no final dos anos 90 e no começo do ano 2000. Podemos dizer que foram criados grandes impérios no setor, principalmente no segmento de confecções e lojas. O crescimento do mercado nesse período foi bem expressivo. Tem um grupo de pessoas que ganharam muito dinheiro com isso. Com isso essas marcas começaram a se popularizar, viraram moda. Muitas pessoas que não pegam onda começaram a consumir essas marcas. Isso por um lado foi muito bom porque injetou um volume de capital muito grande no mercado, mas por outro lado, esse movimento se afastou do perfil do surfista de verdade. Até chegar ao ponto de você ver na TV uma pessoa sendo presa usando um boné de surf porque todo mundo usava roupas de surf. As marcas de surf também sofreram um processo muito violento de pirataria. O surfista mesmo que é um cara autêntico, diferente, que gosta de estar sempre na vanguarda parou de consumir o surf. O surf virou um produto popular e o surfista parou de comprar. Já o surfista que seguiu consumindo as marcas, que tem o hábito de viajar para o exterior para surfar, deixa pra comprar produtos lá fora, que é muito mais barato. Então a reunião dessa mudança de perfil do consumidor de surf com a crise econômica de 2008 pra cá resultou na queda acentuada no consumo. O mercado demorou um pouco para acordar. As empresas que no passado registraram altos faturamentos demoraram para perceber que essa queda poderia acontecer e que eles teriam que se reinventar o quanto antes para não sofrer tanto os impactos da crise. Toda essa situação levou o mercado a uma queda e hoje a gente vê as marcas com faturamento bem mais baixo em relação aos anos anteriores. De certa forma isso é triste porque estamos vivendo o melhor momento do surf brasileiro no exterior, em termos de atletas, de competição, de ídolos. Sem dúvida o Brasil hoje é a maior potência do surf mundial, mas o mercado de surf brasileiro está em uma situação super delicada financeiramente.

S.P.  – Você sente essa influência “Brazilian Storm” “Era Gabriel Medina” nos eventos de surf realizados pelo Ibrasurf?

A.Z. – Eu sinto que o crowd aumentou bastante (risos), que é o lado ruim de tudo isso, mas eu sinto também que a sociedade está vendo o surf com outros olhos, de uma forma positiva e que as grandes empresas que não são marcas de surf também estão vendo o surf com outros olhos. Essas grandes empresas finalmente enxergaram que o surf é uma excelente plataforma de comunicação com o público jovem. Isso é até uma situação que não sei se é triste ou engraçada, mas por exemplo, no ano passado as marcas patrocinadoras do Circuito Universitário de Surf foram Club Social, 51 Ice, Halls e Subway. Nenhuma marca de surf. Ou seja, no auge do surf brasileiro, Medina e Mineiro recém-campeões mundiais, o Brasil visto como o país do surf, a gente não tinha uma marca de surf com condição financeira de investir no projeto. Ao mesmo tempo que esse boom do surf trouxe outras marcas de fora do segmento para investir na modalidade, por outro lado toda essa crise, tanto de identidade quanto financeira, do mercado de surf fez com que as marcas do segmento se afastassem dos campeonatos, exatamente por estarem com grandes dificuldades (confira vídeo abaixo de uma etapa recente do circuito universitário realizado pelo Ibrasurf).

S.P.  – Como vocês do Ibrasurf enxergam o apoio do poder público na modalidade?

A.Z. – O apoio do Poder Público, não só no surf, mas no esporte em geral, é fundamental. Todos os eventos de surf do Ibrasurf que acontecem no litoral têm o apoio das prefeituras através das associações de surf municipais e da federação paulista ou de outras federações em outros estados. Eu acho que o poder público entende hoje que o surf é uma importante ferramenta de integração social. Eu quando tinha escolinha de suf na Riviera eu tinha 60 vagas para projeto social. Ali na Riviera você tem um condomínio de alto padrão e nas praias ao lado, principalmente Indaiá, você tem uma situação bem complicada. Por isso, desde o primeiro dia de funcionamento da escola, foram abertas 60 vagas dedicadas para atender a molecada carente local, com aulas gratuitas, cujo foco, além do esporte era formar cidadão e contribuir para o desenvolvimento humano daquelas crianças. Você conversava com essa garotada antigamente e perguntava “o que você quer ser quando crescer?”. E a resposta era única: “jogador de futebol”. Se você for hoje nas praias, nas escolas de surf, e perguntar para uma criança o que ela quer ser quando crescer ela vai responder que quer ser surfista profissional. Por que? Porque eles viram que um dos maiores ídolos deles, exemplo o Mineirinho, saiu de uma comunidade carente e por meio do surf virou um ídolo nacional, campeão do mundo. Hoje tanto o poder público como a comunidade carente tem essa visão de que o surf pode transformar vidas e pode contribuir para diminuir a desigualdade social e tornar o país, uma cidade ou estado mais justo, honesto. No caso do Circuito Universitário especificamente o Governo do Estado de São Paulo ajuda bastante, por meio da Lei Estadual de Incentivo ao Esporte que é fundamental para a realização dos projetos. Outro exemplo: se você pegar a etapa do WCT no Rio de Janeiro, nos últimos anos quem mais bancou e apoiou as etapas foi a Prefeitura e o Governo do Estado, foram os maiores patrocinadores. Se você for ver nas etapas do WQS de Maresias (SP) e de Saquarema (RJ) o poder público local também teve papel fundamental.

S.P.  – Hoje quando um jovem pensa em viver do surf ele imagina um único caminho, que ele tem que ser surfista profissional e não existe apenas esse caminho. Você é um exemplo disso. Qual conselho você dá para aquele jovem que quer viver do surf?

A.Z. – O Ibrasurf apoia e incentiva todo mundo que deseja trabalhar com o esporte, desde que seja um trabalho sério e profissional que agregue algo de valor para o surf. Infelizmente ainda existe muito picareta e aproveitador no mercado de surf brasileiro. Tem muita gente que se aproxima do surf apenas para se aproveitar e não contribui. Se a pessoa fizer um trabalho sério e que contribua para o nosso esporte terá sempre nosso apoio porque o surf precisa de profissionais capacitados. A receita para se viver do surf com sucesso é você se capacitar, estudar, se dedicar, ser honesto e trabalhar duro. Tem muita gente que pensa que só porque o cara vive do surf ele vive o dia inteiro na praia pegando onda e vendo a mulherada de biquini. E não é nada disso. É um trabalho tão árduo como qualquer outro. A vantagem é que a gente fica o dia inteiro pensando em surf, mas tem um monte de pepino pra resolver. Como qualquer outro negócio você tem que ter foco, planejamento, determinação, superação, força de vontade. Posso dizer que nada é fácil. O que eu estimulo muitas os jovens com quem converso é ir buscar. Se você quer viver do surf ou de qualquer outra coisa, você tem que ser o melhor nisso e buscar estudo e capacitação. Há vinte anos quando a gente começou o Ibrasurf tinha um monte de gente meia boca no mercado. Hoje, duas décadas depois, eu ainda vejo um monte de gente pouco capacitada no mercado. E o surf não precisa de gente meia boca trabalhando pela modalidade. O surf precisa de pessoas boas, sérias, profissionais e dedicadas que estão dispostas a fazer o esporte crescer. E se o surf crescer ele vai beneficiar a todos que vivem do surf.

 

Sobre João Carlos Godoy

Jornalista, surfista, amante, fanático por surf e pelo mar. Formado no curso de MBA de Gestão no Esporte da Universidade Anhembi Morumbi e assessor de imprensa na área de negócios e esporte. E-mail para contato: jc.surfistapaulistano@gmail.com
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2 respostas para Bate-papo com Ale Zeni, CEO do Ibrasurf

  1. Edu disse:

    Parabéns João excelente matéria o Zeni está na minha galeria de Mestres que me instruíram de forma positiva na minha vida e amam o surfe, mais que eu kkkk ALOHA Zeni sucesso… Ou mais sucesso na sua árdua jornada

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